Embora tencione ocupar a maior parte deste espaço virtual com coisas novas e, de certa forma, diferentes, a realidade é que há coisas que passam completamente ao lado de muita gente e não deviam, de forma alguma, passar. Por isso, de vez em quando é preciso parar, olhar para trás e ver o que é que perdemos. Pois bem, voltemos então a Seattle, em inícios da fulgurante década de 90. O Mundo assistia ao nascimento de um fenómeno musical do qual saíram bandas que marcaram para sempre uma geração: Pearl Jam, Alice in Chains, Nirvana, Soundgarden e tantas outras. A droga era muita e barata. Nascia o Grunge.
No final dos anos 80, Jeff Ament (baixo) e Stone Gossard (guitarra) tocavam juntos nos Mother Love Bone. Pouco depois do seu álbum de estreia, Apple (muito bom!), a morte do vocalista Andrew Wood, por overdose, claro (!), terminava precocemente a curta carreira dos Mother Love Bone. Estávamos em 1990. Gossard e Ament juntam-se então a Mike McCready (guitarra) e começam a gravar demos, com a bateria a cargo de Matt Cameron (Soungarden e, posteriormente, Pearl Jam). Daqui surge uma cassete intitulada Stone Gossard Demos '91, que incluía os temas Dollar Short, posteriormente chamada Alive, Agytian Crave, posteriormente chamada Once, e Footsteps, posteriormente chamada... Footsteps.
Esta demo chega então às mãos de Eddie Vedder, através do seu amigo Jack Irons (baterista de Red Hot Chilli Peppers). Reza a "lenda" que Vedder ouviu a demo e foi surfar, com os riffs electrizantes de Alive e Once e os acordes melódicos de Footsteps a ecoarem vezes sem conta na sua mente. Nessa tarde (sim, numa tarde!), Vedder escreveu as letras para as 3 músicas, gravou-as e enviou-as de volta para Gossard, com o rótulo Mamasan. Resultado: Pearl Jam! Ao que parece, as letras escritas por Vedder para esta trilogia resultaram do cruzamento entre a sua infância conturbada e a história de um serial killer que andava na matança lá para os lados de San Diego.
Mas a realidade é que dificilmente alguém conseguiria ouvir estas músicas separadamente e vê-las como uma obra única, até porque Footsteps não foi incorporada no álbum Ten, saindo mais tarde como um B-side do single Jeremy. Felizmente, em Zurique, 1992, Vedder proferiu estas palavras, que mudaram para sempre a minha forma de ouvir e sentir esta trilogia:
"I was gonna tell you a little story that the next three songs... We've never really played them together, but they go together. It's all one story...Do you want to hear about it? I haven't told anybody about this before. I don't want to ruin any interpretations of the songs that you have, you know? But it's about incest, and it's about murder, and, you know, all those good things. And if you can picture in your mind, the third song takes place in a jail cell. So this is our own little mini-opera."
A trilogia começa então com Alive, um autêntico hino, onde Vedder descreve uma relação de incesto, na qual o narrador é abusado sexualmente pela sua mãe, por ser bastante parecido com o pai que acabara de morrer. Começa bem... Ao longo da minha vida ouvi vezes sem conta esta música, sem prestar grande atenção à letra (um gajo quando é novo não quer saber dessas coisas!) e os poderosos "I'm still alive!" sempre entraram pelos meus ouvidos com uma mensagem extremamente positiva. Pois... Parece que não é bem assim.
Segue-se Once. Depois de uma infância, digamos... difícil, o narrador desta saga envereda numa matança descontrolada, quinando tudo quanto é prostituta que apanha pelo caminho. Com uma infância daquelas era de prever que a sua relação com as mulheres não fosse a melhor...
E esta mini-ópera fecha com chave de ouro, com a fabulosa Footsteps. Neste tema, o narrador encontra-se preso, à espera para ser executado. E a letra é assombrosa. Brilhante! E eu que pensava que era sobre suicídio... (fora da trilogia faz todo o sentido).
Desculpem lá a longa lição de história, mas acho que há coisas que merecem ser dadas a conhecer e esta é, sem dúvida, uma delas.
. Balmorhea e a febre de se...
. Qualquer coisa de extraor...
. Up there in my tree, livi...
. Oops!... They did it agai...
. Passem por lá